O TEMPO DE ALMA WELT



30
O Tempo Suspenso (de Alma Welt)

Quisera suspender do Tempo o curso
Tal como implorava Lamartine
No seu lago feliz, mas sem discurso,
Que tempo não há que não termine.
Mas enquanto ele corre, que agonia!
Passa o tempo e nele a juventude
E com ela o próprio sonho que me guia
E que acalentei enquanto pude.
Mas se velha eu ficar, do que duvido,
Possa alguém, um poeta, dedicar
A esta Alma um poema nunca lido
Mas feito para mim em minha velhice
Como o soneto famoso de Ronsard
Às rosas e ao Tempo, e que este ouvisse...
04/05/2017
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Eis o soneto famoso de Pierre Ronsard (1524-1585) :
Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise aupres du feu, devidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous esmerveillant :
Ronsard me celebroit du temps que j'estois belle.
Lors, vous n'aurez servante oyant telle nouvelle,
Desja sous le labeur à demy sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s'aille resveillant,
Benissant vostre nom de louange immortelle.
Je seray sous la terre et fantaume sans os :
Par les ombres myrteux je prendray mon repos :
Vous serez au fouyer une vieille accroupie,
Regrettant mon amour et vostre fier desdain.
Vivez, si m'en croyez, n'attendez à demain :
Cueillez dés aujourd'huy les roses de la vie.
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29
O tempo presente (de Alma Welt)
O Tempo que nos cabe é o presente,
Fugidio como peixe ensaboado
Que escapa-nos dos dedos de repente
E ficamos para ele no passado.
Ele deixa-nos pra trás sem mais delongas
Sonhando com o tempo do Afonsinho
De gregárias calendas de milongas
Num qualquer saudoso Bar do Minho
Onde um luso de bigodes como um muro
Servindo pinga e não água corrente
A nossa boemia fomentava...
E como éramos felizes no presente
Daquele tempo repleto de futuro,
A sonhar com quase tudo que calhava!
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04/05/2017
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28
As orelhas do Tempo (de Alma Welt)
As orelhas são fixas no Tempo *
E crescemos entre elas, diz a lenda,
Desde que não haja contratempo
E enviemos uma de encomenda *
Para as terras de Gog e de Magog *
Onde nascem os pintores e poetas
Que antes escolhem as suas metas
Pra ser feliz depois, como Van Gogh. *
Bah! Todo o nosso criar é surreal
Já que nada leva a crer tanta loucura
De morrer por "um pedaço de pintura"...*
Mas só quem pinta sabe do que falo
E, numa tela, persegue o ideal
Seja em grossa pasta ou meio ralo... *
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23/12/2016
Notas
*As orelhas são fixas no Tempo - alusão à teoria leiga de que já nascemos com o tamanho definitivo de nossas orelhas e nossa cabeça é que vai crescendo entre elas...
*E enviemos uma de encomenda - alusão ao envio, feito por Van Gogh, de sua orelha embrulhada e sangrenta, para uma prostituta de um bordel próximo, que o rejeitara...
*...terras de Gog e Magog -
Os Montes Gog e Magog (English: Gog Magog Hills ou Gog Magog Downs) estão a três milhas do sul de Cambridge, e é dito ser a metamorfose do gigante depois de ter sido rejeitado pela ninfa Granta. O vidente Thomas Charles Lethbridge afirma ter visto um grupo de três esculturas escondidas nos Montes Gog e Magog. Ele os cita em seu livro Gogmagog: The Buried Gods (Gog Magog: Os Deuses Enterrados). Por causa disso os montes foram batizados com esse nome.
(Gog e Magog, com outro sentido, são citados de maneira obscura no Apocalipse ( XX, 7) de João.)
*Pra ser feliz depois, como Van Gogh - Vincent Van Gogh foi um dos mais felizes destinos póstumos da pintura, já que sua obra ficou, toda, em bloco, praticamente completa na mão de sua cunhada, viúva de seu irmão Theo, que inteligente e sensível dedicou o resto de vida à glória da obra de seu querido cunhado (em vida tinha sido sua correspondente, amiga e incentivadora).
* De morrer por um pedaço de pintura- os críticos franceses de pintura, no século XIX, usavam a expressão "un morceau de peinture", para descrever uma fatia (ou pedaço) de tela que atingiu a perfeição numa pintura.
*E, numa tela, persegue o ideal/
Seja em grossa pasta ou meio ralo - Os pintores buscam sempre a pintura pura, ideal, mesmo quando paisagistas ou figurativos, pintando com grossas camadas como Van Gogh e Soutine ou com ralos véus de veladura, como Diego Velásquez.
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27
Oração ao Tempo (de Alma Welt)
Que meu tempo não seja só a espera
De conclusões ainda que felizes,
Nem o da caçada de uma fera,
Sem a fera, ou só levante de perdizes...
Que não seja mero jogo, desfastios,
Muito menos o de mil cartas marcadas,
Ou daqueles que ficaram a ver navios
E do ônibus a espera nas calçadas.
Que meu tempo não tenha sido em vão
Ou somente aperitivo pra Saturno
Enquanto o deus aguarda o seu filão.
Mas que seja eu mesma a iguaria
Enquanto avança Cronos por seu turno,
Pra devorar a mim e à minha Poesia...
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11/10/2016
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26
Meu pequeno relógio (de Alma Welt)
Um reloginho ganhei quando guria
De ouro, um mimo, com ponteiros
Que me fascinavam, de certeiros,
Mas o tempo, neles não corria...
Como eram lentos os ponteirinhos!
Como o tempo era longo, e a vida, enfim...
Era difícil maturar aqueles vinhos
Nas garrafas reservadas para mim.
Então eu disse ao pai: "Me deste o Tempo
Ele agora me poupa à revelia,
Preciso que me dês um contratempo".
Rindo, meu pai, então, seu mimo retirou:
"És impaciente, e eu não sabia,
Mas foi a vida que até hoje te poupou..."
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10/10/2016
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A Senhora do Tempo (de Alma Welt)
Meus amores finalmente hão de voltar
Mesmo a terra estando pobre, devastada,
Se eu não tiver senão minha morada:
Esta casa, o jardim e o meu pomar...
Sou a senhora do tempo que foi meu
Pois que o dominei com minhas palavras
Em noites claras e outras como breu,
Em versos, minhas verdadeiras lavras.
O vinhedo? Esse foi-se com os ventos
Após tantas vindimas de alegria
Deixando agora gestos bem mais lentos...
Mas não lamento nada, que amei tanto
E plantei minha semente de poesia
No lugar das uvas secas e do pranto...
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12/02/2013
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24
Mais Palavras ao Vento (de Alma Welt)
Vento, há muito tempo não te imploro
Que me leves daqui para os teus pagos
Pois o Tempo já não ouve quando choro
E a ele não seduzem meus afagos.
Então ponho-me nua ante os espelhos
E peço que me dêem mais uns anos
Ao menos pelos meus pêlos vermelhos, *
Que a estes não pertencem meus enganos...*
Ó Tempo, ó espelhos, ó meu Vento!
Revelai-me a essência do momento
Num acordo que o meu destino sele,
Que nada mais almejo, só mais prazo,
Já que a cada rima mais me atraso
Para o Verso fatal que me revele...
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10/02/2013
Nota
* Ao menos pelos meus pêlos vermelhos / que a estes não pertencem meus enganos ... - Alma com estes curiosos versos quis dizer que ela era ruiva natural (não de "enganos", tingida), pois seus pêlos púbicos eram vermelhos...
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23
Tempo e coração (de Alma Welt)
Ó Tempo, desfila em minha varanda
Mas não me transforma o coração
Que permanece de guria e pouco anda
Me mantendo sentadinha na estação
A esperar o trem das novidades
Como se o mundo só mudasse alhures
E eu, aqui, na espera e nas saudades,
Que dessa nem espero que me cures...
Mas, coração, passageiro ensimesmado,
Liberta os olhos de passadas águas,
Que não passas d'um narciso debruçado,
E deixa-me ir ao léu com o trenzinho
Às terras onde nem existem mágoas,
Nem é mais verde o pasto do vizinho...
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22/10/2012
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Encontro com o Tempo (de Alma Welt)
Na coxilha com o Tempo me encontrei,
Muito velho a andar com firme passo
E com tanto domínio de sua lei
Que não me atrevi a dar-lhe o braço.
A barba branca até o tornozelo
Lhe dava um tal aspecto bizarro
(mas não de sujeira ou desmazelo,
que nessa bizarria não me amarro)...
Mas, confesso, um tanto temerosa
Saudei o velho andarilho com respeito
Sem saber se o fiz em verso ou prosa.
“Tão gulosa tua quota devoraste”-
Disse o velho com o dedo no meu peito-
“Que a ti mesma para trás deixaste...”
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Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)
Tenhamos reverência pelo Tempo
Já que ele respeita o nosso passo
Tão desigual em meio a contratempo,
Infortúnio ou só mudança de compasso.
Ele é o Senhor, é o Maestro autoritário
Todavia mesmo às vezes paternal,
Conquanto passível de humor vário
E quase sempre inflexível no final...
Sabei, senhores: o Tempo é mesmo Deus
Que o Verbo conjugou, nos complicando,
Ao criar a Nostalgia e o Adeus.
Mas o Presente é Seu fluxo visível,
O Futuro imprevisível retardando
E tornando o Amor, mesmo, possível...
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22/09/2007
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20
Na viagem de minha vida (de Alma Welt)
Na viagem de minha vida solitária
Tenho todo o tempo pra sonhar,
Mas sento-me à janela, que, contrária,
Busca distrair o meu olhar.
Assim vejo a mim mesma contra o fundo
De um cenário mutável e veloz
Que é o retrato dinâmico do mundo
Transformado em filme como nós
Que custamos a entender as tramas várias,
Confundidos com o nosso personagem
Em tomadas assim fragmentárias
Que é preciso editar para entender
O sentido linear e a mensagem
Que somente o Diretor logra saber...
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Outrora caminhei de Alma Welt)
Outrora caminhei sobre um jardim
De flores densamente alcatifado,
Em que cores e perfumes, para mim,
Eram meu próprio corpo projetado.
Pois criança, estendia meus limites,
Já que as doces coisas tão queridas
Me cercavam lançando seus convites
Confundindo-me à suas próprias vidas.
Crescer foi um processo, para mim,
Doloroso, do cortar de mil gavinhas
Como orquídea transplantada de xaxim.
E me vejo exilada do jardim
Qual de um mágico buquê dessas florinhas,
Como ervas são podadas, por daninhas.
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Volto ao pomar (de Alma Welt)
Volto ao pomar da minha infância
Lembrada qual se fosse a Grande Era,
Comovida com os ecos à distância
Que a própria memória reverbera.
Caminho ao redor da macieira
Como outrora, com a mesma sensação
De ouvir mais claro o sopro e o coração,
Junto às raízes em que estou inteira.
E confiro junto ao tronco e suas folhas,
Do meu destino o preço e a missão,
Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,”
“Me deixa completar a minha sina
Seguindo do meu ser a inclinação
Como a semente ao fruto se destina!”
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Sob o cone de luz (de Alma Welt)
Sob o cone de luz, que me deslumbra,
Cercada do bailar dos filamentos,
Dissipo no Tempo meus momentos
E sinto a alma sair de sua penumbra.
E vejo-me a mim, melhor, me sinto
Neste turbilhão tão silencioso
Cintilante, como em tela às vezes pinto
O espaço ideal, com tanto gozo.
E é claro, para mim, esse sentido
Do surgir, e após o brilho pressentido
Mergulhar no Nada, novamente,
Numa eterna dança coruscante,
Que consola meu corpo e minha mente
Com ser eterna, e bela, num instante.
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Quando chegar ( de Alma Welt)
Quando chegar o meu momento
Quero olhar a vida num relance
E vê-la inteira, sem tormento,
Polida, completa, ao meu alcance
Como em mármore, escultura acabada,
Obra-prima que por ser assim perfeita
Merece a atenção, que nela deita,
E repousa na beleza, apaziguada.
Pois que Vida e arte, uma só
Visão, tarefa, obra, sai da alma
E dura como se não fosse pó.
Assim ludibriamos nossa morte
E sentimos como a vida então se acalma
Por um tempo bem maior que a nossa sorte.
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As horas voam (de Alma Welt)
As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
09/12/2006
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14
Ananke (de Alma Welt)
Eu vi o grande fuso do Destino
Atravessando o céu e a terra num cilindro
De luz, bobinando lento e lindo
Das três Parcas aquele fio tão fino.
Passado, Presente e Futuro
Eu vi de uma só vez nesse momento
E com o mesmo olhar ainda perduro
Perplexa, com o mesmo sentimento,
Pois tive do Mistério a vertigem
Por fração do Tempo eternizada
E vi do Edifício a fachada,
Embora o alicerce ou sua origem
Permaneça na alma ainda virgem
E a razão de tudo, intocada.
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Nightmare (de Alma Welt)
Acordo nesta cama em que estou,
Assustada, em plena madrugada,
E logo me dou conta, espantada,
Que um silêncio fundo me acordou.
Nem um latido ao longe, nem um galo
Nem o cri-cri dos grilos que são gratos
Quando anunciam chuva, nem os sapos,
Tampouco o Tempo escoando pelo ralo.
E esse silêncio atroz me desespera
Pois deve ser o mesmo dentro a tampa
Fechada do caixão que nos espera
E corro ao espelho apavorada
Por um segundo antevendo minha campa
Sobre minha bela face descorada.
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06/01/2013
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12
Sinopse (de Alma Welt)
Os poentes me devolvem a guria
Reverente e humilde finalmente,
E preciso contemplá-los todo dia
Para ter um parâmetro na mente.
Testemunho de Deus em ato puro
Para nós se agraciados pela fé,
Para outros é o sol atrás do muro
Do horizonte como onda de maré.
Mas para mim é o ciclo eterno,
Ou da vida abreviada trajetória
De sua primavera ao seu inverno:
Se morro todo dia também nasço,
Como uma sinopse da estória
Cujo tema é só o Tempo-Espaço...
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05/04/2012
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11
A Jornada ( de Alma Welt)
A quem agradecer tanta beleza?
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?
Acabamos de aprender alguma cousa,
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.
Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada
Que terá sido tão bela de se ver...
E a verdade é a beleza, disse Keats, *
Era tudo o que havia pra saber.
06/11/2006
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O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)
Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,
E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...
Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?
Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...
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05/08/2010
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9
Confusão (de Alma Welt)
De muito longe no tempo vem minh’alma,
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raíz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...
Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.
Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.
Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.
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11/06/2010
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8
Alma Frankenstein (de Alma Welt)
Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?
O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...
Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.
Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...
16/12/2006
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7
Alef (de Alma Welt)
E me vi num espaço de alforria
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.
E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.
Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!
Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...
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26/02/2010
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O Poeta e o levante (de Alma Welt)
Através dos milênios à porfia,
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.
A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.
Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende
Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...
26/02/2010
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5
O rio ( de Alma Welt)
Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
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08/07/2006
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O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
08/01/2007
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3
Antípodas (de Alma Welt)
Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
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27/07/2008
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2
Dúbios domingos (de Alma Welt)
Tenho com os domingos dúbia liga
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.
A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.
Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva
A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.
28/11/2006
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1
O passatempo das horas (de Alma Welt)
Para escapar às tentações do tédio
Não aceito nenhum jogo de baralho,
Nenhum de tabuleiro ou o borralho
Dos sentimentos e do raciocínio médio.
Em matéria de cartas só respeito
As da cigana com seu pacto astral
Ou aquelas que exigem muito peito
Como as do Rôdo em seu pôquer marginal.
Mas servil, vejo o passar das horas
Como um mordomo que exige as atenções
A elas porque são grandes senhoras
Que preferem o soprano da poesia
Que lhes é apresentada nos salões
Onde o próprio Tempo se enfastia.
05/01/2007

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